Ação do Strophantus 6CH nas arritmias cardíacas

Carlos Heitor Pioli*
*Médico cardiologista, homeopata - Pinhal


INTRODUÇÃO

                     Na literatura homeopática faltam trabalhos na área de cardiologia e desde 1971, mais precisamente  4 de novembro, palestra proferida em reunião da Associação Paulista de Homeopatia pela Dra. Helena Minin, incentiva-nos sobremaneira a aplicação do Strophantus em baixa dinamização, tanto no coração insuficiente como no coração isquêmico, devido ao elevado número de pacientes beneficiados através do uso do referido medicamento, na Clínica do professor Peter Schmidsberger, na Inglaterra.

OBJETIVO

                     Este trabalho visa de maneira clara e simples, através de E.C.G., demonstrar a ação benéfica e curativa do remédio Strophantus 6CH nas bradiarritmias cardíacas.

MATERIAL E MÉTODO

                     Participaram do trabalho sete pacientes, com idade variando de 31 a 90 anos e de ambos os sexos. Os pacientes apresentaram-se ao consultório do autor por vontade própria, sem nenhum encaminhamento e foram escolhidos de acordo com a chegada, não tendo sido submetidos a nenhum preparo prévio para o tratamento com Strophantus 6CH.           Apenas foram suspensos os medicamentos alopáticos que se mostravam insuficientes, bem como, em um caso, o medicamento homeopático utilizado na 6LM (que também não se mostrava competente) e introduzido nosso medicamento pesquisado em questão.
                     Para conferência, após exame físico e comprovação da arritmia através do E.C.G., suspendia-se a medicação em uso, administrava-se Strophantus 6CH e procedia-se a controles de 3 (tres) dias, aumentando os espaços de tempo à medida que se observava melhora clínica do paciente. Em seguida, fazíamos outro E.C.G. de controle, com orientação individualizada.
                     O aparelho utilizado foi um ECAFIX-FUNBEC-E.C.G. 5 - papel termo-sensível Carbex para eletrocardiógrafo com 48 mm x 20m.
                     O Strophantus 6CH foi adquirido pelo próprio paciente e sempre na mesma fonte - Farmácia Nova América - Rua Capitão Evaristo Lopes, 87 - Andradas - MG - produzido pelo Bioquímico - Farmacêutico Dr. Alcides Buzato.

RESULTADOS

Caso I - N. O. 90 anos - sexo feminino - do lar - Andradas - 24/01/92.
Queixa - Falta de ar aos mínimos esforços, até parada, tontura com aperto no peito impedindo de caminhar. P.A. 150x70, edema de MMII ++/5+. Vem medicando-se há setenta dias com os medicamentos Digoxina 0,25, Clortalidona, Ranitidina. Ao E.C.G. observamos FC- 42 batimentos por minuto. Ritmo sinusal irregular, elevado número de extra-sístoles-ventriculares, fenômeno de Wenckeback ou Mobitz tipo I.
Suspendemos a medicação acima citada nessa data, administramos Strophantus 6CH - 6 gotas 4 vezes ao dia e em 20/02/92 obtivemos o seguinte resultado no E.C.G. - FC 80 batimentos por minuto - ritmo sinusal regular, espaço P-R com duração de 0,2 segundos (limítrofe) com o paciente eupnéico, sem tontura, sem edemas de MMII e deambulando sem ardor no peito - PA - 130x80.

Caso II - V.J.L. 54 anos - sexo masculino - lavrador - Andradas - 25/01/93.
Queixa - Falta de ar ao caminhar e aos menores esforços, forte tontura ao abaixar e ficar em pé rapidamente. Desconforto no peito com crises de dor ardida aos mínimos esforços, com duração no máximo de 5 minutos - melhorando com imediato repouso. Há três anos vem medicando-se com o medicamento  Dinitrato de isossorbida, nas crises de dor no peito - Digoxina 0,25 - Hidroclorotiazida 50 mg -  Ácido Acetil Salicílico 100mg - P.A. 140x100, edema de MMII ++/5+. No E.C.G. encontramos uma FC variando de 46 - 64 batimentos por minuto - ritmo sinusal  irregular - extra-sístoles ventriculares em número de 16 por minuto, complexos QRS aberrantes em sua maioria. Suspendemos a medicação alopática e administramos Strophantus 6CH - 6 gotas 3 vezes ao dia.
Em 09/03/94, com o paciente totalmente recuperado das queixas anteriores, obtivemos um E.C.G. com FC de 56 batimentos por minuto, ritmo sinusal regular, nenhuma extra-sístole ventricular e complexos QRS normalizados.

Caso III - B.O.S. 63 anos - sexo feminino - do lar - Andradas - 10/08/93.
Queixa - Dor ardida no peito, queimada, com amortecimento do braço esquerdo - canseira ao menor esforço -insônia e, quando dorme, tem sonho com pessoas que já morreram - calor no corpo como o da menopausa - P.A. 160x90.
Vem medicando-se com Cloridrato de propanolol 40mg duas vezes ao dia, Propatilnitrato três vezes ao dia e nos episódios de dor - uso sub-lingual. O E.C.G. nos mostra ritmo sinusal irregular, com FC variando de 60 - 75 batimentos por minuto, excessivo número de extra-sístoles ventriculares - seguimento ST infradesnivelado com T negativo em DI-AVL-V5 e V6, retificado em DII - AVF e V4, sem sinais de bloqueio. Suspensa a medicação, administramos Strophantus 6CH 6 gotas 3 vezes ao dia. Em 30/08/93 desapareceram todos os sintomas e em 03/11/93 o E.C.G. nos mostra um ritmo sinusal regular FC 60 batimentos por minuto - ondas T positivas em todas as derivações, ausência de extra-sístoles ventriculares, seguimento ST sem supra e infradesnivelamento.

Caso IV - M.C.R.G. 31 anos - sexo feminino - do lar - Andradas - 09/02/94.
Queixa - Dor ardida no peito há 4 meses, irradiando para o braço esquerdo até a mão esquerda, que fica sempre inchada. Batedeira no peito com posterior falta de ar. Queimação nos pés à noite,  não consegue cobri-los. Aperto no peito com nó na garganta. Apresenta-se com uma cesariana há três anos, com imediata histerectomia total, retirada de cisto de ovário esquerdo há 4 anos, cirurgia de dilatação da uretra há oito meses, dois abortos há seis e sete anos. Vem medicando-se há quatro meses com Bromazepam 3mg, Cloridrato de Amiodarona e Estrógenos conjugados, Cloridrato de Clordiazepöxido. P.A. 95x60. O E.C.G. nos mostra ritmo sinusal irregular, FC variando de 58 - 100 batimentos por minuto, mostrando arritmia sinusal sem bloqueios. Suspendemos a medicação citada e administramos Strophantus 6CH 6 gotas, 3 vezes ao dia e Sulfur 6CH 6 gotas ao deitar. Em 18/02/94, ou seja, nove dias após a consulta inicial, a paciente apresenta-se com P.A. 110x70, sem nenhuma queixa, com eletrocardiograma mostrando ritmo sinusal regular com FC 75 batimentos por minuto. Suspendemos Sulfur e mantivemos Strophantus por mais trinta dias. A paciente retornou sem nenhuma queixa anterior com E.C.G. nos moldes já definidos.

Caso V - J.A.R. 70 anos - sexo masculino - lavrador - Andradas - 30/03/93.
Queixa - Tontura, falta de ar, fraqueza generalizada, barulho na cabeça, visão turva de amarelo, insônia. Vem medicando-se com Bromazepam 3mg, Carbocisteína, Complexo B, Cinarizina 75 - P.A. 160x80. No E.C.G. vemos ritmo sinusal irregular com variação da FC de 40 - 50 batimentos por minuto, elevado número de extra-sístoles ventriculares, diagnosticando bradiarritmia sinusal importante e com ausência de bloqueio A-V. Suspensa a medicação, administramos Strophantus 6CH 6 gotas 3 vezes ao dia. Em 30/04/93 apresenta-se com melhora de todas as queixas antigas e no E.C.G. vemos FC 75 batimentos por minuto, ritmo sinusal regular e ausência de extra-sístoles ventriculares.

Caso VI - C.V.A. 65 anos - sexo feminino - costureira - Andradas - 06/11/92.
Queixa - angústia, ansiedade, chora facilmente e por qualquer motivo, total inapetência, insônia, dispnéia  aos mínimos esforços e intensa fraqueza. P.A. 150x80. Vem medicando-se com Natrium muriaticum 6LM há 90 dias. Ao E.C.G. observamos FC variando de 60 - 75 batimentos por minuto. Ritmo sinusal irregular, elevado número de extra-sístoles ventriculares (26/minuto). Sinais de sobrecarga de VE - retificação T em DI - DII - ACL - AVF - V2 - V3 - V4 - V5 - V6 - T negativo em DIII. Suspenso o medicamento, passamos ao Strophantus 6CH 6 gotas 3 vezes ao dia. Em 11/01/93, apresentou-se para retorno sem nenhuma queixa anterior com E.C.G. nos mostrando FC 75 batimentos por minuto, ritmo sinusal regular, ausência de sobrecarga de VE, positivação de T em todas as derivações e retificado DIII.

Caso VII - I.Z. 62 anos - sexo masculino - pedreiro - Andradas - 27/05/92.
Infarto agudo do miocárdio antero-septal extenso, com aneurisma de ponta de VE. Submeteu-se a cirurgia reparadora e de revascularização em 22/06/92, conforme nos mostra relatório 7.1 e 7.2 Recebeu alta em 13/08/92 da Beneficiência Portuguesa SP com a seguinte medicação:  Fosfato de disopiramida, Cloridrato de Amiodarona, Cloreto de potássio, Furosemida, Digoxina, Aminofilina. Em 31/08/92 apresentou-se para consulta com a medicação citada, queixando-se de tontura, dispnéia aos mínimos esforços, não conseguindo deambular à menor distância e necessitando decúbito bem elevado de cabeceira. P.A. 90x60. Ao E.C.G. observamos FC de 70 - 120 batimentos por minuto, totalmente irregular, retificação de ondas T em todas as derivações. Q patológico de V1 até V4. Sobrecarga de VE. Extra-sístoles ventriculares em número de 21 por minuto, variando de 18 a 26, aberrantes em sua maioria. Os pulmões se apresentam congestos com sibilos difusos por todo tórax. Suspendemos a medicação alopática, orientamos absoluto repouso no leito, Strophantus 6CH 10 gotas em jejum e à noite. Aminofilina 0,1mg 1 comprimido à tarde (que mantivemos por apenas 30 dias).
Em 12/12/92 nosso paciente retorna com P.A. 110x70 e ao E.C.G. observamos uma FC rítmica de 58 batimentos por minuto, regular, sem nenhuma extra-sístole ventricular. Ondas T positivadas, mantendo a sobrecarga de VE, porém mais discreta, e as ondas Q como cicatriz do I.M. que, como sabemos são de caráter irreversíveis, com o paciente sem nenhuma queixa anterior, deambulando normalmente e com decúbito normalizado.

COMENTÁRIOS

                     Como podemos observar, procuramos neste trabalho, uma variação razoavelmente ampla de arritmias, desde aquela com lesão permanente, passando por transitórias, até chegarmos ao coração cirurgiado (aneurismectomia de VE), para que pudéssemos ver com clareza a ação do medicamento homeopático em estudo.
                     As doses não foram rigorosamente padronizadas, apenas a dinamização (6CH), porque, como sabemos, o Strophantus pesquisado até então na correção de arritmias e coração insuficiente, foi empregado em baixas dinamizações, ou seja, 1D e 1CH.
                     Com relação à dosagem, procuramos sempre ministrar 6 gotas 3 vezes ao dia e, no caso mais grave, mais severo de insuficiência, optamos por 10 (dez) gotas duas vezes ao dia, acreditando que esse fato não venha comprometer  a avaliação do medicamento.
                     Importante salientar que, em todos os casos com lesão permanente, mantivemos o medicamento até o presente e pretendemos continuar, pelo efeito benéfico que temos observado em seu emprego.
                     Nos casos em que trabalhamos com coração sem lesão permanente, mantivemos a dosagem mencionada até 90 dias após a correção total verificada no E.C.G.. Depois, orientamos uma dose ao dia, todos os dias, sem a retirada total do remédio.
                     Verificamos também, em todos os casos tratados, que, antes mesmo de registrarmos a correção do traçado eletrocardiográfico, o paciente clinicamente já se apresentava bem, com franca diminuição dos sintomas. Sempre verificamos essa situação a partir do 15º ao 25º dia do inicio do tratamento.
                     Para todos os pacientes, sem exceção, orientamos os cuidados clínicos que tal patologia exige, como repouso, restringir sal, diminuir peso, evitar excesso de força, corrigir alimentação, etc.

CONCLUSÃO

                     O autor documentou a melhora eletrocardiográfica (e clínica) de 7 pacientes bradiarrítmicos, submetidos ao tratamento com Strophantus 6CH. (nível de similitude local).
                     Embora o pequeno número de casos deste trabalho, a concordância com os resultados relatados por outros autores permite considerar a possível  ação benéfica do Strophantus nas bradiarrítmias cardíacas, uma possibilidade terapêutica que merece pesquisas clínicas mais elaboradas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- MININ, H. Tratamento de Cardiopatias. Palestra proferida na reunião da Associação Paulista de Homeopatia em 04/11/71. Revista de Homeopatia, n.148, p.36-39, 1981.
2- MESQUITA, Q. H. Como escapar da ponte safena e do enfarte do miocárdio. [S.L.]: Ed. Icone, 1980, p.36,37.
3- VIJNOVSKY, B. Tratado de Matéria Médica Homeopática . Buenos Aires: [s.n.], v. 3, 1992, p. 408-410.

CASO I
ANTES

DEPOIS






CASO II

ANTES


 
 

DEPOIS





CASO III
ANTES


 
 

CASO III
DEPOIS







CASO IV
ANTES

 
 

CASO IV
DEPOIS






CASO V
ANTES
 
 

DEPOIS






CASO VI
ANTES


 
 

DEPOIS
 


 
 

CASO VII
ANTES

 
 

 CASO  VII
DEPOIS